Opinião

Entre Continentes, a arquitetura técnica de um Acordo que redesenha valor

O Acordo Mercosul–União Europeia representa um novo quadro operativo que pressiona as empresas a evoluir — tecnicamente, estrategicamente e estruturalmente.

A conclusão das negociações do Acordo Mercosul–União Europeia (“UE”) representa um ponto de viragem para setores industriais que dependem de regras claras, previsibilidade ao nível de tarifas e cadeias de abastecimento resilientes. Não estamos perante um acordo abstrato: antes perante um novo quadro operativo que pressiona empresas a evoluir.

O entendimento entre a UE e a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai (de fora, a Bolívia) estabelece uma das maiores zonas de comércio livre do mundo (estima-se impacto em mais de 700 milhões de pessoas).

O acordo consiste em dois instrumentos legais: o Acordo Comercial Intercalar focado em matérias comerciais (o qual, apenas exigia maioria qualificada), diferentemente, do Acordo de Parceria UE–Mercosul (o qual, ao requerer a ratificação pelos 27 Estados-Membros e focado em matérias de cooperação, investimento e ambiente demorará em estar em pleno funcionamento).

O Mercosul é estratégico para garantir o acesso dos Estados-Membros a matérias-primas críticas (da Argentina e Brasil, em particular) como lítio, nióbio, tântalo e grafite natural essenciais para baterias, energia renovável e tecnologias verdes, representando para a UE, estabilidade e previsibilidade comercial, segurança e diversificação do aprovisionamento.

Com o aumento das quotas de importação de produtos agrícolas (em 2024, já representavam cerca de 24 mil milhões de euros), o setor é aquele com maior objeção ao Acordo, tendo a Comissão Europeia já proposto medidas de salvaguarda como a possibilidade de suspensão de tarifas preferenciais se houver aumento súbito das importações que provoque queda nos preços europeus, um fundo de crise agrícola de cerca de 6,3 mil milhões de euros, ou a afetação de 45 mil milhões de euros do orçamento da UE 2028–2034 para agricultura e desenvolvimento rural.

No setor automóvel, a eliminação gradual das tarifas — que hoje representam até 35% no custo direto de veículos e 18% em componentes — permite reduzir significativamente os encargos de exportação/importação, aumentar as margens europeias, prolongar ciclos industriais com maior eficiência e, para o Mercosul, ampliar o acesso a tecnologia especializada, maquinaria de precisão e componentes de maior valor tecnológico.

Assim, este acordo é sobretudo mudança de comportamento, num momento histórico em que se deve privilegiar mais afinidade estratégica que mera proximidade geográfica. E este acordo obriga-nos a enfrentar uma verdade desconfortável: ou a UE se torna mais competitiva, ágil e ainda assim sustentável — ou fica para trás.

Para o Mercosul é a oportunidade de se modernizar, atrair investimento e escalar capacidades industriais. Para a Europa, é a hipótese de garantir matérias‑primas críticas, diversificar riscos e reduzir dependências, aplicando a sua capacidade tecnológica. Para ambos, é o teste de fogo sobre a capacidade de conciliar comércio com responsabilidade ambiental e social — porque o “crescer a qualquer preço” já não tem lugar na equação.

Mas o verdadeiro desafio não está em controlar tarifas ou quotas, mas na capacidade de cada país, empresa e líder, interpretar o Acordo para operar uma mudança estrutural no modo como se compete. O cronómetro já arrancou. As empresas devem mapear as respetivas cadeias de abastecimento, rever riscos e exposições, requisitos técnicos e certificações, recalcular modelos de custo e previsões de margem, integrar novos padrões de sustentabilidade, proteger as Indicações Geográficas (ex. vinho ou ainda nas bebidas espirituosas, prevendo-se a redução total do custo aduaneiro até 35%). Fortalecer estruturas depende de minorar políticas comerciais voláteis e dependências externas, o que exige coragem estratégica. E talvez esse seja o maior valor deste acordo: forçar a UE a deixar de ser apenas competente para assumir relevância transcontinental. Entre continentes, constrói-se uma ponte. Mas atravessá-la — com visão, velocidade e responsabilidade — depende de cada um de nós.

A carga pronta metida nos contentores Adeus aos meus amores que me vou P’ra outro mundo” (Xutos e Pontapés), deixa claro que “é uma escolha que se faz”: agregar valor, para repartir e reequilibrar posições ou escolher vias unilaterais. Certamente todos esperamos que esta nova zona de comércio livre supere em prós, os contras que alguns Estados-Membros e setores mais temem (como o agrícola, onde os preços são mais voláteis).