Opinião

Contabilidade nativa em IA: os novos modelos de negócio

Existem em Portugal e na União Europeia centenas de milhares de prestadores contabilidade, quase todos com menos de vinte pessoas. É esta configuração que está a atrair uma nova geração de operadores nativos em inteligência artificial. A barreira já não é tecnológica, pois as ferramentas estão ao alcance de qualquer organização. A questão é quem as saberá aplicar primeiro aos processos que conhece melhor.

O sector da prestação de serviços profissionais de contabilidade e auditoria é, em Portugal e na União Europeia, composto por centenas de milhares de prestadores, sendo a grande maioria constituída por estruturas de pequena dimensão, que empregam menos de vinte pessoas. É precisamente esta configuração, ou seja, um mercado de receita significativa, mas fortemente pulverizado por firmas de pequena dimensão, que proporciona um dos terrenos mais férteis para a transformação que a inteligência artificial está a provocar nas firmas de serviços profissionais.

O modelo de negócio tradicional, assente em prestadores de serviço que vendem horas de trabalho e em empresas de desenvolvimento tecnológico que vendem licenças de software, encontra-se em mudança de paradigma. Novos modelos asseguram a convergência entre serviços e software, combinando conhecimento, workflows, dados e tecnologia em soluções lideradas por inteligência artificial que entregam resultados, em vez de fornecerem mão de obra ou licenças. A inteligência artificial executa o trabalho e a tecnologia replica o conhecimento dos especialistas em escala.

A inteligência artificial reduz significativamente a barreira técnica à construção de aplicações, em que grande parte do esforço de desenvolvimento e codificação, integração e teste passa a ser assistida ou executada por agentes, permitindo que perfis não especializados participem na conceção e na evolução das soluções. As organizações podem assim desenvolver as suas próprias aplicações com menos tempo e menos recursos especializados em IT do que o modelo tradicional exige. A consequência é relevante, já que quem vai capturar valor nos serviços profissionais não será quem vende tecnologia, mas quem conhece o processo em profundidade e passa a conseguir construir as suas próprias soluções.

É este o contexto que leva ao aparecimento de novos operadores em setores onde a tecnologia era, até aqui, comprada e não construída. O sector de prestação de serviços de contabilidade, como mercado altamente fragmentado, relações contratuais recorrentes e processos repetitivos e padronizáveis, apresenta-se como um dos setores mais permeável a esta transformação.

Aos fatores anteriores acresce ainda uma pressão demográfica relevante, onde milhares de profissionais de contabilidade se aproximam da reforma e a sua substituição é cada vez mais difícil. E por outro lado, a normalização das práticas e reporte na Europa torna os processos contabilísticos e fiscais mais digitais e estruturados, aumentando a quantidade de trabalho que pode ser automatizado.

Deste contexto começa a emergir na Europa uma nova categoria de prestadores de serviços de contabilidade nativos em IA, que se organiza em dois modelos distintos, nomeadamente, firmas construídas de raiz e plataformas de consolidação.

Empresas de contabilidade AI-native — designadas next generation accounting firms — utilizam IA para assegurar a contabilidade end-to-end, com agentes supervisionados por contabilistas certificados de modo a garantir fiabilidade e conformidade. São exemplo deste modelo, soluções de AI que disponibilizam agentes 24 horas por dia para esclarecer dúvidas, emitir faturas e efetuar a reconciliação bancária automática, suportados por contabilistas certificados que fazem a validação do trabalho e a assinam as declarações que o exijam.

Roll-ups AI-native plataformas tecnológicas que adquirem escritórios de contabilidade, preservando marca, equipas e carteira de clientes, mas reconstruindo a operação sobre aplicações baseadas em IA. Ao contrário dos modelos tradicionais, no qual venderiam as ferramentas ou soluções aos contabilistas, passam a realizar a operação de contabilidade e obtêm receitas diretas dos serviços de contabilidade, fiscalidade e processamento salarial. Os escritórios trazem confiança local, clientes recorrentes e anos de dados financeiros e a plataforma traz capital, operações partilhadas e automação.

As condições que tornam os serviços de contabilidade permeável a estes modelos repetem-se noutros setores. Por exemplo, na gestão imobiliária, tal como é o caso de operador do Reino Unido que cresceu através da aquisição estratégica e sucessiva de agências, e hoje gere carteiras na ordem das dezenas de milhares de imóveis e conseguem que 80% dos clientes completem todo o processo de arrendamento sem contacto humano.

O volume de capital já afeto a estes modelos sugere que os investidores reconhecem o seu potencial e que existe espaço para várias plataformas de grande dimensão. A questão relevante deixou, porém, de ser tecnológica, uma vez que as ferramentas que os sustentam estão amplamente disponíveis. A vantagem reside hoje na capacidade de as aplicar a processos que se conhecem em profundidade e de reorganizar a prestação do serviço em torno delas. Para as organizações que operam em setores com características idênticas, como a fragmentação, a receita recorrente e o trabalho padronizável, a pergunta pertinente não é se estes modelos chegarão ao seu mercado, mas quando chegarão.